quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Luto em Portugal






JFS/Global Images

[Secção desabafos] O silêncio pode ter muitos contornos: de respeito, de indignação, de indiferença, de interesse. O silêncio, tal como tudo o que reveste o ser humano capacitado de razão, não é neutro. Se há momentos que se compreende a prudência, noutros, o silêncio de cariz político para “não se molhar” ou manter um posto simplesmente pelo poder, revela a total desumanidade e capacidade de liderança num Estado dito de Direito (e de Deveres). O dever de um governante é de ser responsável por aqueles que governa e quando se entra em total desgoverno, mostrando insensibilidade pela morte de mais de 100 pessoas por motivos de incapacidade política diante das tragédias, então é altura de se repensar essa mesma liderança. Cada vez mais perde-se a força do simbólico no melhor dos sentidos. Perde-se a noção da importância das declarações de quem nos governa que, mesmo sendo na agitação do momento, não se compreendem. Nem um simples pedido de desculpa ainda surgiu por parte do poder político. Todos são responsáveis. É muito grave! A política que se perde no poder pelo poder deixa de ser política. A política, no seu sentido mais profundo, importa-se pelos seus cidadão, pela sua “polis”. É triste continuarmos há anos em desgoverno. As ideologias políticas podem ser diferentes, mas, diante da morte, todos os sinos tocam também por cada um de nós. A morte de pessoas, de bens, de florestas, da dignidade política, significa morte de humanidade. É grande o luto em Portugal.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Muitas.



Paulo Cunha/Lusa

[Secção desabafos] Fico no silêncio. As horas, em mim, são de oração. A incompreensão é grande. Que não se “culpe” a natureza. Ela é amoral. O ser humano é que vive em razão, levando a que o seu comportamento errado ou negligente destrua. Aí, querendo ver-se ou não, há culpa. São muitas as mortes. Muitas.

domingo, 15 de outubro de 2017

Educar




Jason Reed/Reuters

[Secção pensamentos soltos] Recentemente, li dois artigos sobre o aumento de alcoolismo e sexo na adolescência. Ambos, estando fora de qualquer contexto religioso, apresentavam muitas preocupações. Se forem lidos na superficialidade, corre-se o sério risco de conclusões igualmente superficiais como “a adolescência está perdida” ou, em casos mais extremos, “o mundo está perdido”. Como gosto de seguir por um realismo acompanhado de esperança, analiso com preocupação os dados recolhidos e tento pensar, em diálogo com mais pessoas, o que podemos fazer para ajudar a que estas preocupações possam diminuir. Afinal, quanto mais aprofundo no conhecimento da corporeidade, mais dou conta da complexidade que anda à volta da humanidade. 

O mais fácil é ficarmos no branco e preto: “proíbe-se e já está”. O mais difícil: tomar consciência dos muitos tons de cinzento, acrescidos da imensidão de outros tons de cores que estão inerentes à realidade humana, e de que a educação é um processo em que todos somos formadores e formados (pais e filhos, alunos e docentes/não-docentes, fornecedor/consumidor, etc. etc.). 

Nessa dificuldade, saltam-me perguntas: como anda a relação, conhecimento, amor, do pai/mãe consigo próprio, como homem/mulher? Como anda a relação, conhecimento, amor, do pai/mãe com o(s) filho(s)? Entre a velocidade de mudanças que acontecem na actualidade, conseguir dar resposta a isto não é nada fácil nem imediatamente claro. Adolescentes com 13 anos com comas alcóolicos ou já três ou quatro parceiros sexuais, em jogos de alto-risco, são resultado de muitos factores. Um, dos piores, é a negação, à qual se junta o idealismo, como projecção de frustrações pessoais: “o meu filho ou minha filha são perfeitos, o problema são os outros que não o compreendem”. Outro, na ponta oposta, o do “descompromentimento”: “o meu filho ou a minha filha têm de saber o que é a vida. Há que deixar viver tudo desde cedo!” O mais grave e explosivo: é não se dar conta de que se está a ser ou hiper-protector ou negligente. Quando se fala de uma educação para a afectividade, é preciso ter consciência que somos seres de afecto. Tanto me afecta negativamente um pai/mãe hiper-protector, como um completamente negligente. 

As crianças e os adolescentes não são adultos em miniatura. Precisam de quem lhes ajude a viver o equilíbrio biológico, psicológico, afectivo e espiritual nos tempos certos. Os adultos estão a ter cada vez menos tempo, físico e mental, logo, menos paciência para educar. Usa-se muito a expressão de “ter filhos”, mas não é uma questão de “ter”, mas de “ser pai ou mãe”. Daí que a ponderação da m/paternidade seja de grande exigência. 

Falar de álcool, de sexo, de drogas, de frustrações, com adolescentes exige tempo e respeito. Nem puritanismo, nem deboche, mas noção de que a realidade tem de ser enfrentada e conversada ora com crueza, ora com ternura, consigo mesmo e com as crianças e adolescentes que, repito, não são adultos em miniatura. Em caso de dificuldade, que ninguém se julgue imediatamente como “mau pai” ou “má mãe”, mas busque ajuda.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

De manhã




[Secção outros tons] A manhã tem laivos de novidade. Entreabrem-se perguntas de existência e autenticidade, num mundo que se quer mais luminoso. As certezas absolutas? Deus não se cansa de amar. Da parte da humanidade: a consciência do ainda muito a descobrir e surpreender. Que seja para a liberdade.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Amor [ao próximo]




Tony Gentile/Reuters


[Secção outros tons] O amor ao próximo tem cor de oliveira em tons de amanhecer. Compreende a dor e não julga. É pessoa revestida de nardo puro.

domingo, 8 de outubro de 2017

[...]




[Secção outros tons] Ao terminar um dia de muitos pensamentos.

Conversas soltas



Eric Harris

- Que sentes ser do mais perigoso no ser humano? 
- Não enfrentar a sua própria sombra, acabando por projectá-la no outro. 
- E do mais libertador? 

- Ser capaz de amar os inimigos. Sinal de que atravessou o longo e grande caminho de justiça e de paz, primeiramente consigo mesmo. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

"Precisamos de forças para reconstruir"




Teresa Lamas Serra


[Secção outras perspectivas, a partir da minha escuta de quem passou por terras queimadas e não quer que tal caia em esquecimento] Nota-se pequenos despontares de verde. Verde eucalipto que tem demasiada força. “Será que nós humanos a temos?” Na rapidez dos tempos, já passaram meses, em plural que aumenta a distância e diminui a importância do tema. Já se gritou, chorou, chocou com a desgraça, contudo “menina, nas televisões já se está noutra.” Ainda assim, as ondas continuam em efeito de saudade e mágoa. Já não é tema político, social, nacional. As terras e os corações queimados estão longe dos écrans e de agendas. No entanto, o luto pelas mais de 60 pessoas está muito vivo em gente que não se conforma com a injustiça. Mas, “vai-se perdendo forças de lutar. Precisamos delas para reconstruir.”

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Filhos a partilhar algo afectivo




Abhishek Murmu

Caras mães, caros pais, se o vosso filho ou a vossa filha partilhar convosco algo relativo à vida afectiva, em particular sobre a orientação sexual, por favor, acolham-no(a) com todo o respeito e amor, como qualquer pessoa merece ser acolhida quando partilha algo que para si é de grande importância. Não descarreguem sobre ele(a) as frustrações, as vergonhas, os medos, a incompreensão, o desespero. Muito menos usem qualquer tipo de violência, nem promessas de castigos divinos. Ele(a) não é um(a) degenerado(a) ou coisa pior. Ele(a) é um ser humano que, sendo vosso(a) filho(a), merece ser acolhido(a) e amado(a) simplesmente por ser quem é. Obrigado!


Já agora, o link para o texto que escrevi depois do encontro que tive em Paris com um grupo de pais católicos com filhos de orientação homossexual: 


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Redes sociais




Masayuki Yamashita

[Secção desabafos] Tenho um ou outro amigo que decidiu sair do facebook. “Chega de ruído emocional em vídeos, imagens e, sobretudo, palavras”, comentava-me um deles. As redes sociais ou caixas de comentários, no facebook em particular, transformam-se em espaços de gritaria sem qualquer filtro, onde se agride com grande facilidade. Ajuda esse intermediário monitor, onde não há face-a-face. No entanto, o modo de agir facebooquiano acaba por ganhar espaço para lá do mundo virtual, on-line. Apercebo-me que a agressão verbal, mais ou menos bruta, está a tomar proporções de terrível normalidade. Exige-se o impensável, em nome da “minha opinião” ou “meu interesse”. O individual resvala para o individualismo com muita facilidade, passando-se para a ofensa como “liberdade de expressão”. A unilateralidade torna-se modo de pensamento e de acção. Isto é perigoso, já que o sentido crítico esfumaça-se sem qualquer subtileza. Afinal, a crítica não tem nada que ver com matança humana, mas com manifestação de acordo ou desacordo a partir de argumentos que contribuam para a construção da humanidade. Confesso, por uma ou outra vez já pensei retirar-me e escrever apenas aqui no blogue. Há momentos que cansa, e muito, tanta descarga de ódio. Custa ainda mais, quando se vê que já se está a tornar um modo de agir no quotidiano. A definição mais conhecida de ser humano ainda tem “racionalidade” no seu conteúdo. Não sigamos em caminho de ficarmos pelo “animal”.  Pensando no escrevi ontem, ainda acredito na importância e força da pele.

domingo, 1 de outubro de 2017

Pele




[Secção outros tons] Depois de leituras, mais ou menos fugazes, do dia de hoje...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Arcanjos




Helena Mestre - no último Campo de Férias

[Secção pensamentos soltos - especial festa dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael] "Deixa-te levar. Confia.", disseram-me no momento surpresa aos animadores no Campo de Férias. Os passos de evolução pessoal conduzem à liberdade de também deixar-se ser levado, quando tal faz sentido. 
- Ah, mas, ainda assim, podes ser encaminhado para algo que não queiras ou não gostes.

- Se em ti o Bem ganha lugar, todo o caminho, mesmo o mais escurecido, é oportunidade para que Ele se torne ainda mais presente. Afinal, apesar de apenas tu o puderes percorrer, anjos e arcanjos, também de carne e osso, não se cansam em dizer "deixa-te levar. Confia."

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Silêncio




[Secção convite ao silêncio] "Não tenho tempo para ter tempo para mim." Deste ou de modo similar, vai-se repetindo o pensamento. Acrescenta a culpa que surge pela paragem com tanto para fazer, como se se tivesse de provar com a azáfama que se é bom pai ou boa mãe, bom ou boa profissional, bom religioso ou boa religiosa, etc.. Se não há esse tempo, todo o outro perde qualidade. E se alguém julgar quem vive a capacidade de parar, claramente necessita de fazer silêncio.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

477 | 14




Inês Furtado - no último Campo de Férias

[Secção vida] O tempo traduz-se em muitas pessoas e histórias que guardo no coração. Dentro dos quase 38 anos de vida, celebro 14 de jesuíta, a juntar, neste mesmo dia, aos 477 da Companhia de Jesus. É de agradecer e muito: a Companhia e o que nela tenho descoberto de força da divindade em encontro com a humanidade, nesta nossa espiritualidade tão encarnada no sentido do amor e do serviço ao próximo. Um Abraço a todos os jesuítas por esse mundo fora, com a minha oração ao “Senhor de todas as coisas” por nós, pelas nossas missões e por todas as pessoas que nos ajudam a ser quem somos.


domingo, 24 de setembro de 2017

[...]




Jonathan Ernst/Reuters

[Secção pensamentos soltos após leitura de algumas páginas da recente carta de “correcção filial” ao Papa francisco] Cheguei há pouco de Soutelo. Estive a orientar Exercícios Espirituais. Sinto-me profundamente agradecido por ver como Deus trabalha no coração de quem se deixa amar em verdade… em profunda verdade consigo mesmo e com Ele. É um desafio estranho, que nos pode levar por caminhos de maior abertura ao imenso que Deus nos pode propor. Além do mais, a beleza da conversão, em perceber como se podem derrubar pequenos e grandes ídolos, até mesmo de imagens de Deus, chegando um pouco mais ao “Deus clemente e compassivo, justo e cheio de misericórdia” que o Salmo de hoje nos recorda. Também tem que ver com o Evangelho de hoje: todos recebem um denário: tanto os que trabalharam o dia inteiro, como os da última hora. Todos recebem o mesmo. Injusto? Sim, se não se compreender o amor de Deus. 

Depois da chegada, passo os olhos pelas notícias online e vejo que houve a publicação de uma carta de “correcção filial” ao Papa Francisco. Só o título da carta causa-me bastante incómodo, junto com o uso do sete, número bíblico da plenitude, na enumeração das “heresias”, ainda mais escritas em latim. Comecei a ler e apenas continuei por esta mania minha de tentar pôr-me no lugar do outro sem julgar. Mas, chega a um ponto que, de momento, não consigo seguir para mais páginas, já que me apercebo da falta de conhecimento do terreno, da “adamah”, das vidas concretas das pessoas, em resumo, do sério sentido do mistério da Encarnação. Ecoa-me o evangelho, onde os trabalhadores de todo o dia gritam a injustiça, em atitude de corrigir o dono da vinha: “Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor.” 

O preâmbulo de que são movidos pela fidelidade a Jesus e amor à Igreja, impele à “correcção”, com as justificações bíblicas e teológicas para o fazer, levando à acusação de heresia. Isto porque algumas publicações e afirmações do Papa Francisco provocaram escândalo. Mas, que tipo de escândalo? De se deixar de segregar pessoas? De se abrir portas às conversões profundamente humanas e espirituais sem ser ao ritualismo? De ajudar a que as pessoas possam conhecer o Deus da liberdade que tanto incomoda a quem gosta de ter gente subjugada a regras moralistas e castradoras? De promover a possibilidade de dar a conhecer uma Igreja que acolhe, recebe, compreende, porque ela mesma, Igreja, recorda que se envolveu com o poder que a levou a rejeitar, segregar, inclusivamente matar, percebendo, então, que por aí não era o caminho? Vamos ver, que se possa discutir teologicamente, também a partir dos dados que todas as ciências na actualidade  nos dão, os argumentos, as interpretações, de forma construtiva do modo a ajudar a crescer este grande Corpo místico de Cristo: bendito seja Deus. Agora, que se queira, sete séculos depois, na atitude paternalista que tanto jeito dá em subjugação, repetir a “correcção filial”, é de andar-se a desejar o poder que não é de Deus. 

Francisco continua a não responder a este tipo de atitudes. A melhor resposta é o testemunho. Podem fazer muito ruído com argumentos de “escândalo” e de “promoção de perda de unidade e da fé católica”, mas a autenticidade com que Francisco mostra o profundo amor que tem por Deus e pela Humanidade, é silêncio habitado por justiça de, voltando ao Evangelho de hoje, quem dá o igual pagamento a todos. Isso, para quem quer ser segregacionista, é difícil de suportar, percebendo-se facilmente a amargura nos seus corações. Quer queiram, quer não, a grande manifestação de fé é a alegria de quem é capaz de amar profundamente o Deus do amor e o próximo como a si mesmo.

Espera, sem cansaço



[Secção outros tons] Espero por ti, sem cansaço, entre cores da tua estação. Nunca te tirarei a liberdade dada, mesmo sabendo que poderás não querer voltar. Espero por ti, sem cansaço.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O luto pede silêncio




O luto pede silêncio. E assim tenta-se escutar os sentimentos que brotam em perguntas. De fundo, há confiança na Vida já abraçada. Essa fé que ilumina novos tempos. As perguntas são do aqui e do agora em renovação, onde o essencial quer ganhar sentido. Do legado dos que partem deveria ficar a vontade de amar (ainda) mais. Só o profundo amor acalma todas as perguntas. Para a ele chegar, o caminho continua a ter de ser feito com muito silêncio, abandono e agradecimento. Até breve, Companheiros. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Anoitece




[Secção outros tons] Anoitece: no silêncio surge a oportunidade de perceber a luz de tantos momentos vividos.

Amanhece



[Secção outros tons] Depois da oração da manhã.

domingo, 17 de setembro de 2017

Perdão e vida




Tony Burns

“P. Paulo, sinto-me lixo por tudo o que fiz.” Recordei esta expressão, dita por alguém que viveu um caminho de conversão, ao rezar os textos do dia de hoje. A sua vida foi marcada por muitas atitudes e comportamentos deploráveis. O processo de conversão começou quando deparou-se com a doença mortal. Passou pela revolta e negação até perceber que não teria muito mais tempo de vida. “Quer viver em amargura até ao momento da passagem? Ou permite-se amar-se apesar de tudo?” Estas conversas nunca são fáceis. Entre afirmar a realidade e ajudar a vivê-la com serenidade são horas de respeito. O livro de Ben-Sirá recorda-nos hoje que podemos viver amargados e amargurados com a podridão das nossas faltas para connosco próprios e para com os outros. Se faço mal, eu sou o primeiro visado. O mesmo livro recorda o fim da vida como momento em que nos confrontamos com a nossa realidade, exortando-nos a sair do ódio. Podemos ter feito do pior, mas Deus está pronto a perdoar e a dar uma nova oportunidade em mostrar-nos que das suas mãos criativas nunca sai lixo, mas beleza. “P. Paulo, apesar das dores horríveis, sinto como nunca senti a paz do perdão.”

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Cadernos e deserto




Casey French

Encontrei dois cadernos daqueles onde vou escrevendo os pensamentos. O mais antigo tem mais de 10 anos. Não resisti a folhear. Surgiram muitas memórias. Tanto que já passei desde aí. Houve momentos em que escrevia mais, outros apenas uma palavra, com saltos de meses sem registar o que fosse. Desperta a recordação: o silêncio aconteceu em aparente deserto interior. Na altura, sentia-o, como se nada houvesse em mim, tanto de fé, como de emoções. Com esta distância, apercebo-me do engano. Afinal, houve muita agitação de busca da identidade e da vocação. Ser padre ainda era algo tão longínquo, parecendo quase impossível de vir a acontecer. Na altura, marcou-me a passagem do profeta Oseias: “vou levar-te ao deserto para falar-te ao coração”. No aparente deserto, o silêncio permitia os gritos de entranhas, libertando perguntas que me fustigavam o ser. Apesar do misto de vergonha, medo e pudor, fui libertando as amarras da pseudo-deferência diante de Deus. Os desertos, em geral, são metáforas de morte. Com Deus, são travessias de Vida. Vou continuar a folheá-los e, em oração da noite, agradecer o muito vivido.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Aroma de chá




[Secção outros tons] A terminar o dia.

Família alargada




[Secção animais] A Crunchie e o Bumby tiveram 3 crias, já todas a animar crianças. Entretanto, já na casa de Verão (sim, estiveram de férias do dono), tiveram mais 7. Já estão crescidas e é uma animação aqui na caixa. Aqui vos apresento todos a dormir em família.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Educar para os sentidos




Jobit George

Neste início de tempo lectivo, partilho o texto “Educar para os sentidos” que escrevi para a Revista da Misericórdia de Santo Tirso, publicado na edição de Julho 2017.

A educação é tema complexo... e, tal como o ser humano, nunca assenta em neutralidade. A nós, jesuítas, sempre nos apaixonou desde cedo. Santo Inácio de Loiola, o nosso fundador, apercebeu-se da riqueza que era formar pessoas, dando-lhes valor e dignidade pela aprendizagem em “letras e virtude”. A pedagogia inaciana, inspirada nos Exercícios Espirituais, conduz a que a pessoa desenvolva e explore os seus talentos, com liberdade de pensamento e religião, em serviço da humanidade. Não é por acaso que o lema dos nossos colégios é o de “Educar para Servir”. 

Indo à etimologia de Educar, chegamos ao latim educare/educere, com o sentido de conduzir, direccionar, orientar para fora. Em modo simples, poderíamos dizer que é ajudar o outro a encontrar sentido na sua vida, dando-lhe ferramentas humano-afectivas e intelectuais. Que significam essas ferramentas humano-afectivas? Da minha perspectiva, têm que ver com a atenção que damos aos sentidos e à afectividade. É o que exploraremos neste breve texto. 

Antes de falar dos sentidos e da afectividade, é de me deter um pouco sobre a questão da corporeidade. É sabido que não temos um corpo, mas que somos corpo. Este ser corpo implica as várias dimensões que o compõem: biológica, psicológica, racional, social e espiritual. Estas dimensões vão interagindo entre si. Pensando na educação, por exemplo, se houver cansaço biológico, não se alimentar adequadamente, a dimensão racional será afectada, provocando nervosismo por não se conseguir realizar uma prova. Ou, se, para além de pressões sociais para esta ou aquela nota, houver descontração na realização de um projecto com base num gosto pessoal, surge a serenidade e o ânimo. Cuidar do corpo que somos, implica o cuidar pessoal, com a totalidade do ser. 

A nossa realidade enquanto pessoas é marcada pelo corpo que pode ter características de individualidade, o “eu”, e de comunidade, o “nós”. Se somos corpo, também somos algo fundamental: corpo em relação. Afinal, apelando à dimensão social, inevitavelmente estamos limitados a determinado tempo e espaço, implicando a presença de determinada cultura na nossa vida. Essa cultura, que começa a entranhar no ser já desde a concepção, vai-se desenvolvendo no modo como se educa a criança, tanto na tomada de consciência de si, da sua individualidade, como da sua presença na primeira comunidade que é a família. 

A consciência da individualidade está muito relacionada com os sentidos. A visão, a audição, tacto, o paladar e o olfacto, na sua organicidade, permitem-nos orientar na nossa presença no aqui e no agora. No entanto, se aprofundarmos um pouco mais os mesmos sentidos, a presença no aqui e no agora humaniza-se. A educação ajuda a ver para além do olhar, a apurar a escuta para além do que se ouve, a deixar que o toque seja transmissor de segurança e de respeito, a permitir o saborear da vida nesse alimento que pode traduzir história e memórias, em conjunto com o aroma que fala de lugares e de pessoas. A criança, antes de qualquer racionalidade, começa a descobrir o mundo a partir dos seus sentidos, conhecendo-se enquanto corpo que é, afectando-a, deixando marcas.

Falar de afecto é falar igualmente de relação. O que é que me afecta? Mais do que “abracinhos” e coisas fofinhas, o afecto é básico na nossa formação enquanto pessoas. Não é coisa de meninas ou de mulheres, mas de todo o ser humano. Entre experiências e acontecimentos, são muitas as referências da importância do afecto e do carinho nos primeiros tempos de vida. Educar, direccionar para fora, implica mesmo estimular a partir do afecto. Vamos entender, claro está, o afecto no seu sentido positivo. Se houver um meio agressivo, de violência, de falta de amor, a criança também recebe esses estímulos. A criança no início do seu desenvolvimento é totalmente afectiva. Assim, todo e qualquer estímulo deve ser de cuidado, de carinho, de confiança. O modo como se educa afectivamente vai marcar a personalidade da criança. 

À medida que cresce, a racionalidade vai ganhando espaço. Então, nesse envolvimento cultural, a criança começa a imitar os comportamentos de quem está mais próximo: pais, outros familiares, educadores escolares. Nós aprendemos por imitação. Não adianta muito dizer algo quando o que faço é o contrário. “Não se grita às pessoas”, quando o modo de falar é aos berros com a mulher ou marido, ou o vizinho, ou com quem não se gosta. É fácil perceber que qualquer coisa não vai bem com quem é azedo nas palavras e nos gestos. Não, não é uma questão de personalidade, mas de problemas afectivos, consigo e com o mundo. Formar-se para educar afectivamente não é restrito ao exercício maternal ou paternal, mas de todo o educador que lide com crianças. Se a personalidade pode ter características genéticas, muito se deve ao modo como se educa. 

Para se educar é preciso ser-se paciente. Para se ser paciente é fundamental ter-se tempo para o poder dar à criança. As crianças sentem muito a nossa tensão ou descontração e reagem a esse mesmo estado. Em geral, as crianças irrequietas, são-no por viverem sob stress dos educadores que as envolvem. A criança é criança, não é um adulto em miniatura, necessitando de atenção. Educa-se a criança no seu espaço e tempo, sem que seja a partir da agressividade, mas da confiança. Muitas vezes surgem modos de educar que forçam a criança a cortes bruscos: “não pego ao colo para não se habituar mal” ou “tens de comer isto ou aquilo”. O forçar é agressivo. A criança por ser mais afecto que razão, tem de conhecer pelos sentidos. Dar-lhe tempo para descobrir as cores e os sabores, dar-lhe espaço para sentir o carinho pelo toque e, pouco a pouco, a descoberta da liberdade a partir da confiança e da segurança. 


Educar para os sentidos, é despertar a orientação, é dar sentido ao crescimento seja de quem for que nos é confiado, ajudando a que a pessoa seja o que é chamada a ser na sua plenitude. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Texto a pensar em ti que entraste e em ti que não entraste no Ensino Superior




Riyas Muhammed

A ti que entraste:
Parabéns! Se foi onde querias, aproveita ao máximo esse desejo que foi brotando e agora vês realizado. O natural ânimo vai ajudar a superar os desafios que tens pela frente. Se foi onde não era bem o que querias, porque não agarrar a oportunidade? Haverá sempre a possibilidade de mudar, mas, ainda assim, algo novo está pronto a ser-te revelado: entre pessoas, sítios e ensinamentos, até poderás ter a surpresa de perceberes que faz sentido e ser o/a melhor daquilo tudo. ;) Enquanto és caloiro(a) vai aprendendo dos mais velhos, não só o que há a fazer, mas aquilo que não queres fazer. Não entres em competições estúpidas, que levam a injustiças e malvadez. Que as tuas classificações sejam sempre abrilhantadas de esforço, de verdade e de colaboração.

A ti que não entraste:
Poderás estar a dar voltas ao porquê, naquela sensação de frustração e vazio. Ou então, a deixar que a esperança da 2.ª fase ganhe sentido para avançar. Não, não és a pior pessoa do mundo. Não te compares com ninguém: a história e a vida são as tuas, o caminho é o teu. O mundo não acabou. Respira fundo e vê o que há a fazer para continuares a lutar pelos teus sonhos. O mundo pode dar voltas, levando-te a encontrar sentido de caminho onde menos esperas. Abre o coração às surpresas. ;)

A ambos:

O Ensino Superior é reconhecimento. No entanto, maior reconhecimento é alguém que trabalha os seus valores na contribuição de um mundo mais justo e humano. Por isso, seja em que etapa de vida estiverem, não sejam medíocres no pensar, na visão do mundo, nem se percam em imitações seja de quem for. Sim, inspirem-se em quem possa orientar para o crescimento humano, que implica o académico, mas, sobretudo, o de sentido de justiça e de serviço. Não guardem para vocês: partilhem, colaborem, humanizem o que vos envolve. Continuem a descobrir os talentos, a pô-los em prática. Não tenham problemas em reconhecer a fragilidade. É certo que em realidades tão competitivas, algumas mesmo selvagens, são os mais fortes que aparentemente ganham. No entanto, a fragilidade bem entendida, pode dar muita força… nesse caminho de humanização. Não esqueçamos: não somos máquinas, somos humanos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Silêncio




Pica - Francisco Mariz Rodrigues

[Coisas na vida de um padre] Antes da Missa de Campo, ou de algo importante, o silêncio do aqui e do agora.

Corpo e Fé e Corpo





[Secção coisas de corpo] Tirei esta foto há umas semanas. Esteve assim uns bons minutos. Achei um momento de grande delicadeza de fé que vive de corpo. Somos corpo. Alguns podemos acrescentar corpo orante, que vive a fé com dinamismo próprio de quem tem de tocar Deus. As imagens, em si mesmo, valem a emoção que lhes colocamos. Qual mãe gostaria que rasgassem sem mais uma fotografia do seu filho? Ou um aficcionado de um clube que diante de si queimassem a bandeira desse mesmo clube? A fé vive de afecto também em corpo. Abraçar uma fotografia no momento da saudade, tocar a imagem na oração, é manifestar a presença que vai para lá do objecto propriamente dito. Aquele toque não é apenas num pedaço de madeira transformado numa escultura. Na sua fé, sem grandes rebuscos argumentativos, toca a relação com Deus que se deixa tocar.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ainda a reconciliação




Andrei Z.


[Secção desabafos] Comecei a manhã a pensar, escrever e, depois, rezar sobre a reconciliação. É um tema que me é particularmente querido e especial. A reconciliação, sendo um processo complexo, permite a paz, individual e comunitária. Este Verão foi e continua a ser particularmente intenso em conflitos. Além das feridas provocadas pelos incêndios em Portugal, penso imediatamente em Barcelona, Charlottesville, Venezuela, Guam, a juntar a tantos outros locais menos conhecidos (ou menos sonantes) que vivem conflitos com impacto para tantas pessoas. No entanto, outros conflitos são também cada vez mais frequentes: as redes sociais têm sido “locais” onde o ódio tem aumentado nas muitas polémicas cada vez mais frequentes. Começam e nunca terminam de forma sensata. Muito pelo contrário, chega ao extremo de levar a tomar-se medidas governamentais influenciadas pela acessa discussão afastada de séria reflexão diante dos temas complexos. Isto provoca, de forma mais ou menos consciente, o aumento de feridas, divisões, impedindo o básico do humano: o respeito pelo outro. Há temas a reflectir? Sem dúvida que há. Mas, não, ataca-se e “mata-se” na honra e na história. Basicamente, anula-se pessoas, dando azo a ideologias da direita à esquerda tomarem conta da sociedade. Entre o ressabiado e a hipocrisia, políticos e religiosos, gera-se podridão em vez de cura. Por mais que alguns possam desejar ou até mesmo querer, o mundo não é, nem vai ser, de uma só cor. O caminho mais difícil é cada pessoa reconhecer e viver em si mesma a reconciliação, percebendo o imenso que também tem no seu ser. Escrevendo desta forma, pode sair a ideia de ingenuidade ou utopia da minha parte. Talvez alguma, sim. Contudo, além de saber que o caminho de reconciliação é duro, difícil e nada apetecível, precisamente pelo confronto antes de mais com a escuridão e verdade pessoais, acredito no ser humano. Aliás, a minha fé no ser humano está intimamente ligada à minha fé em Deus que se fez frágil, vulnerável e limitado. Pois, é preciso muito silêncio, tanto em quantidade como em qualidade. O silêncio, calando os ruídos e gritos exteriores, permite expurgar os interiores. Calando esses, a vida própria em comunidade ganha mais sentido. Não se pode continuar a banalizar o mal, sobretudo, como li há pouco num artigo, com passos de quotidiano. Esses passos travados podem ser convertidos em bem: em especial no respeito que cada um tem por si próprio e por cada pessoa.

Paz e Silêncio




Suzanne Rodrigues


O desafio da actualidade: a Paz, em caminho de reconciliação. Para tal, é preciso paragem, em tempo de encontro com terra, mar e céu interiores. Não é automatismo, mas caminho de diálogo com luzes e sombras, feridas e curas, pecado e graça diante da história pessoal e comunitária. Há demasiadas lutas de interesses, esquecendo que o poder que humaniza é o do serviço ao próximo. Para lá chegar, é preciso muito silêncio habitado de Vida e de Infinito. Bom dia!