terça-feira, 23 de maio de 2017

Devaneios nocturnos




Attila Balogh


[Secção devaneios nocturnos antes de ir dormir] Desde os tempos Bíblicos do Antigo Testamento, passando por Platão e Aristoteles, depois o Evangelho e todos os outros textos neo-testamentários, de seguida pensadores e mais pensadores em busca do sentido humano e da paz, a humanidade segue em busca de si. Antes, era uma sociedade mais holista, onde uma ou outra personagem se destacava. Agora, são milhares que se querem destacar, sem noção de que há mais Comunidade para além deles. O mundo segue o ritmo que lhe dermos… na nossa individualidade, complexa e séria, e na nossa relação em comunidade. Enquanto a inveja prevalecer ao “amor ao próximo”, continuaremos na animalidade e na ânsia de poder que não permite outras perspectivas. Com riscos de que a solidão seja a próxima paragem.  Para que tal não aconteça, que se dê mais atenção à Luz que dissipa as trevas. Boa noite!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Silêncio ou Encontro ou Dança




[Secção outros tons] "Silêncio" ou "Encontro" seriam títulos possíveis. Ou "Dança" com o ondear da chama e do fumo.

O império desconhecido?






[Secção esclarecimentos] Continua a saga. Parece que tenho um império sem saber. Pois, não tenho transportes, nem construo muros ou vedações, apenas pontes... e os arranjos que faço são de Relações. ;) Obrigado Débora por esta descoberta.

domingo, 21 de maio de 2017




Madalena Meneses

Foi um fim-de-semana intenso. Entre baptismos, primeiras Comunhões e Profissões de Fé, muito Espírito se viveu por estes lados. Junto com muitas perguntas interiores. Olho para os pequenos, seja em criança, seja em pré-adolescência, e vejo-os a celebrar algo importante e único. Olho para os familiares e amigos presentes na celebração e vejo a comunidade reunida. Em ambas as celebrações, a minha oração para cada um, para cada uma, foi, além de agradecer as suas vidas, que não ficassem com a fé estagnada, como se tivessem “cumprido” algo, nesse “já está” de papel assinado. A fé, mais que de papéis assinados, vive de testemunho e maturação… entre dúvidas e inquietações, é caminho de aprendizagem.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Falta de Educação




Julio Lozano Brea

[Secção desabafos] Não, lamento, o problema não é o Correio da Manhã. O problema é a falta de Educação. E não de uma Educação qualquer.... é a falta da Educação do pensar e do respeitar, cada vez mais trocada pela rapidez da emoção sem filtro da razão que leva a actos completamente desumanizados... tanto no autocarro, como na publicação. Podem boicotar qualquer jornal, no entanto, enquanto se tratar a Educação como coisa menor, desde a tenra infância até à Faculdade, bem, toda a vida, mais vídeos lamentáveis continuarão a aparecer e indignações a surgir. A cultura do sensacionalismo há muito que está instalada. Para que haja mudanças, é necessário muito silêncio, reflexão e consciência da verdade acima de audiências e vendas.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Anular fobias...




Como padre, sinto como missão, à semelhança de Jesus, ser promotor de reconciliação e de paz. Para isso, é necessário que se caminhe no reconhecimento da dignidade que desfaça todas as fobias... em especial as que anulam o respeito por seres humanos. Dando atenção ao Evangelho, Jesus rompe com catalogações, amando cada pessoa como é. Simplesmente amando.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Silêncio na consagração




Tony Gentile/Reuters


Quando Bento XVI visitou Portugal, o silêncio que se fez no Terreiro do Paço no momento da consagração foi algo que me marcou. Estavam lá milhares de pessoas. Voltei a viver a mesma sensação no sábado passado. À volta de um milhão de pessoas silenciaram-se para que as palavras de Jesus, ditas pelo Papa Francisco, ecoassem, consagrando o pão, o vinho e cada coração disponível para a conversão, no Corpo e Sangue de Cristo. O Corpo: comunidade aberta a participar da Vida que deseja sempre a vida do outro. O Sangue: essência que é atravessada de mistério do muito que há a descobrir da Vida, da misericórdia e da entrega por cada ser humano… sem excepção. O silêncio foi e é marcante. Nestes momentos, aclara-se o sentido do temor a Deus, que nada tem que ver com medo… apenas o respeito diante da beleza do mistério de quem vive a Humanidade em pleno para a salvar. 2000 anos depois, ainda há muito caminho a fazer… e silêncio, muito silêncio. Afinal, a fé não vive de gritos, mas de testemunho de Vida.

domingo, 14 de maio de 2017

Dia 13 de Maio de 2017



Nuno André Ferreira/Reuters

[Secção pensamentos soltos sobre o dia 13 de Maio em Portugal] Este vai ser um dia a recordar. Para todos os gostos, Fátima, Futebol ou Festival da Canção, fez com que Portugal sentisse a emoção do que é único a acontecer. Os três F's têm a sombra do Estado Novo, no entanto, as três realidades dos F's vividas agora, mostram mais liberdade do que se possa imaginar. Quem vai a Fátima pelos 12 e 13 de Maio a Outubro, percebe o quanto a fé tem a capacidade de unir pessoas vindas de pontos geográficos e culturais tão distintos. Este ano, marcado pela canonização de Jacinta e Francisco e pela peregrinação do Papa, foi muita emoção aliada a mensagens claras de reconciliação. Fugindo das imagens milagreiras, supersticiosas, encontrar o sentido de encontro com Maria e com Cristo: o caminho de Paz, em acções e gestos concretos contra, como nos disse o Papa Francisco, "a indiferença que gela o coração e agrava a miopia do olhar". Que gestos são esses? Ver e sentir no ser humano, em geral os que mais sofrem (de perto e de longe), alguém que não se pode descartar. Para tal é preciso reconhecer a força da conversão ao caminho de ternura e do amor. Ainda nas palavras do Papa em Fátima, "sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes." Vemos como o Amor é fundamental para a paz. Já não é uma atitude emotiva, mas uma acção concreta para que a Vida tenha sentido. Parece-me a mim, que se liga à canção vencedora, composta e cantada, pelos irmãos Sobral: Amar pelos dois, numa visão de proximidade e, alargando, Amar por e com todos numa visão de universalidade, em "preces" e em gestos. É de recordar as palavras, vestidas e ditas, de Salvador Sobral sobre os refugiados. Os gestos podem, e devem, estar imbuídos de arte, de poesia, de cultura que convidam à profundidade que molda mentalidades. Os gestos de amor devem de começar desde cedo na educação que ajuda à virtude de ajuda ao outro. E aqui, juntando também o desporto, na competição saudável e justa entre os adversários, nesse resultado de trabalho em equipa. Em resumo, a fé, aliando a emoção e a razão, ajuda-nos a perceber a força da existência a partir do Amor e da Esperança. Isso dá liberdade. A música, ou qualquer arte, quando busca a profundidade do sentir e do amar, torna-se sinal de Vida e, sem dúvida, de liberdade. O desporto quando mantém o sentido justo da sua função torna-se livre de toda a opressão, em especial a financeira, dando espaço a vitórias, mais que tudo, humanas. Dia intenso, este, de 13 de Maio de 2017.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Flor e Paz




[Secção outros tons] A suavidade da história, seja qual for, quer-se em bem me quer. A reconciliação é necessária sem floreados. No entanto, a flor, na sua singeleza, recorda a beleza da existência, sem confusão, nem lutas. A paz é e será sempre um dos efeitos da ressurreição.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Libertar amarras




[Coisas na vida de um padre] Ajudar, como o próprio Jesus, a libertar amarras e ver quem sai de uma boa conversa de verdade, antes de mais consigo mesmo, com um ar mais luminoso, é do melhor! É isto!

Conversas de e com dança




[Coisas na vida de um padre] Ontem, a coreógrafa Isabel Barros e eu estivemos à conversa a partir do mote "Creio num Deus que dança". O encontro foi no Centro Dehoniano. Entre surpresas dançantes, foi um bom momento de partilha sobre o quanto Deus dança e faz dançar. Obrigado irmãos dehonianos pelo convite.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Despertar






[Secção outros tons ao amanhecer] Quando desperto, agradeço a Deus o novo dia. Fico na cama e deixo-me sentir nesses minutos, entre a preguiça e a certeza da vida, entre o "mais um bocadinho" e os pensamentos que surgem disto ou daquilo a fazer, entre o silêncio do último sonho e o som dos primeiros carros na estrada lá fora. De tudo, faço oração. Deus é. 

[Foto com poema de José Tolentino Mendonça]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Dia do Trabalhador





Frans Lanting


[Secção pensamentos soltos em dia do trabalhador] No ano em que não entrei na Universidade, estive a trabalhar durante 9 meses numa recepção na Praia da Rocha. Depois dos “biscates” para ganhar uns trocos durante as férias de Verão, essa foi a minha primeira grande experiência laboral com grandes responsabilidades, especialmente com o dinheiro dos câmbios. Recordo a sensação de receber os primeiros ordenados, tanto dos “biscates”, como dessa vez na recepção, e, depois, já como comissário de bordo. A boa sensação do resultado do esforço. Tal como a boa sensação das gorjetas pela simpatia. Uma vez deram-me 5 contos (25€). Achei que se tinham enganado. Não, não tinham. Era mesmo esse valor que queriam dar-me pela forma como estive com os filhos (passavam as tardes na recepção comigo) e resolvi os pequenos problemas que tiveram. Recebi dos meus pais esses valores humanos. Neste dia, também penso em como Jesus aprendeu os valores de Maria e de José, que a Igreja hoje, aliando-se à importância da dignidade do trabalhador, celebra como operário. Um Verão, já estando eu na Universidade, tendo em conta a minha experiência, o meu pai pediu-me ajuda para trabalhar na recepção do hotel onde era director e assim substituir um colega que estava de baixa. Voltou a comentar um pensamento que vivia: “respeita sempre cada colega, seja no horário, seja na personalidade. Quem trabalha nas limpezas é tão importante como eu ou como o nosso patrão.” 

No trabalho, tal como na vida, somos chamados a respeitar as pessoas, independentemente do género ou condição social. No nosso país, ainda somos dados a muitos “salamaleques” para mostrar respeito. Mas não é pelo “Dr.” ou “Eng.” ou “Sr. Presidente” ou sei lá que mais, que se mede o respeito. Também ainda há, infelizmente, muita diferença no trato caso seja homem ou mulher, dando-se casos de profundo desrespeito. A Educação é de extrema importância para anular estas diferenças sem sentido para a dignidade. Usando a imagem do corpo, percebemos a diversidade de membros com respectivas funções de que é composto. Alargando do indivíduo para a comunidade laboral, ou “corporação”, também existe a diversidade de membros numa empresa, em que uns dependem de outros. Funcionalmente não terão o mesmo nível de importância, mas em dignidade todos merecem o respeito que impede que se caia, por exemplo, na escravatura (infelizmente ainda existe e muita. Basta pensar no flagelo do tráfico humano que em plenos século XXI é uma grande e triste realidade). Assim, mais do que uma hierarquia de poder, percebe-se a importância de uma hierarquia funcional, ou seja, de serviço, que sou, somos, chamados a viver.

Há pouco, na oração, agradeci, não só a minha experiência, como a dos meus pais que ensinaram-me a respeitar o trabalho e as dificuldades da vida. Depois dei outro passo: entreguei a Deus todas as pessoas que estão desempregadas ou que têm de se sujeitar a condições desumanas de trabalho. Conheço bastantes, entre família, amigos e conhecidos, que, infelizmente, passam por uma destas situações. Hoje não é o dia transcendente ou metafísico do trabalhador. É dia para recordar que o trabalho justo, aliado ao igual justo descanso, fazem parte da dignidade humana. 

domingo, 30 de abril de 2017

Depois da chegada, a partida





Os discípulos de Emaús caminharam com Jesus ao lado sem o reconhecerem. Repassaram a história, no contar dos acontecimentos marcantes. Em resumo, a vida. Na chegada, à noite, dá-se a luz nessa simplicidade de pão abençoado partido. Regressam a Jerusalém de coração ardente, tornando-se anunciadores. Hoje, alunos e educadores peregrinos, somos discípulos agradecidos por tanto bem recebido nestes dias, que levam vida por, com e em Deus, no regresso a Lisboa, Cernache e Caldinhas.

sábado, 29 de abril de 2017

Peregrinação






[Coisas na vida de um padre] Em peregrinação com alunos. O caminho é feito a caminhar, já dizia o poeta Antonio Machado. Enquanto se caminha, agradecem-se os passos, as pedras e todas as histórias. Quando peregrino, rezo por todas as pessoas que me pedem orações... o abecedário, portanto.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Liberdade




O tempo tem-me preenchido a escrita nos encontros e outros afazeres. No entanto, em dia em que a Liberdade impera nas palavras e memórias, deixo o desejo de que os nossos gestos sejam cada vez mais livres... de opressão e de imposição no sentir, no pensar, no crer, ganhando força de autenticidade. 

[Foto com poema de José Tolentino Mendonça]

domingo, 16 de abril de 2017

Domingo de Páscoa






[Secção outros tons - especial Domingo de Páscoa] As mulheres dão sinal da Luz. Seguem o insistente convite de largar as amarras do medo. É a Vida que renova todas as coisas, desvelando anúncio de fé, esperança e caridade. Deu-se a Passagem do Senhor. Aleluia. 

Santa Páscoa a quem passa por aqui em cada dia. Neste dia especial, em que Cristo ressuscitou, rezo o abecedário, recordando todos os nomes, pedindo-Lhe a Sua Paz, Vida e Luz por vocês.

sábado, 15 de abril de 2017

Sábado Santo






[Secção outros tons - especial Sábado Santo] Vagueio errante nos sentimentos. O pensar ainda está enevoado, tanto das tuas palavras e gestos de erguer cada rosto perdido, como do silêncio da hora em que ficaste perdido na escuridão da morte. A pedra rolada encerrou a pedra angular. Libertando o vazio da memória, recordo a água fresca nos pés, o teu toque, o teu olhar. E sigo.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Silêncio em noite de Sexta-feira Santa




Sanjay Ramani

[Secção desabafos em noite de Sexta-feira Santa] Esta é a noite do silêncio profundo que evoca todas as dúvidas, perguntas, angústias. Deus está morto, afirmou Nietzsche uma vez. Aquele em quem todas as palavras ganhavam cor, na autenticidade que fazia engrandecer a alma, foi estendido na cruz e sepultado em tempo de trevas. Sim, Deus morre na sua humanidade, tomando para si toda a morte, nessa injustiça que só quem ama tudo e todos pode assumir. Durante a celebração da Paixão e na procissão do enterro do Senhor, o meu coração enchia-se de silêncio carregado de gritos. Naquele tempo e nesta noite, vive-se o memorial que faz repetir todos os acontecimentos, juntando todos os gritos que dia após dia voltam a ecoar no mundo que busca sentido e Paz. Faz-se silêncio pelas trevas que envolvem gestos de morte que atacam tantos seres humanos indefesos, na sua fragilidade, condição de deficiência ou idade. Silêncio pelas trevas que buscam escravidão de mãos nas minas de minerais preciosos ou de corpos vendidos ao prazer de tantos que usam e abusam da mulher como objecto sexual. Silêncio pelas trevas dos que são assassinados pela sua fé ou que são postos em Campos de Concentração por serem de condição homossexual e aí serem torturados. Silêncio diante da normalização de bombas que caiem destruindo e matando, sem pudor e vergonha de se usar a palavra “mãe” numa delas. Silêncio diante das imagens de coletes laranjas em barcos pelo Mediterrâneo, de gente que foge da morte. Silêncio diante da falta de Educação, ao nível político e em claques de futebol que desejam a morte a outros, sem respeito pela memória dos que partiram em desastre de avião. A noite é densa por todas as dúvidas, perguntas e angústias. Nós que temos fé, acreditamos em Deus que morreu, de forma indigna, na sua humanidade para nos resgatar, a todos, à Vida. Que esta noite de silêncio nos ajude a, mais que compreender, viver o muito a que somos chamados no caminho da Paz. 

Sexta-feira da Semana Santa



[Secção outros tons - especial Sexta-feira da Semana Santa] Os ruídos adensam-se em gritos. Acumulam o tempo dos injustos, enquanto burlam histórias e latejam as costas em dores silvadas. Abandono. Chegou a hora em que os olhos semi-cerrados revelam a dignidade de quem não se cansa de amar. Eis o homem elevado até às profundezas do abismo humano. O véu rasgado tomba. Silencia-se a divindade... ouvindo-se o vento entre os ciprestes.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quinta-feira da Semana Santa






[Secção outros tons - especial quinta-feira da Semana Santa] A toalha cinge os rins. Antes da partida, sela-se o serviço de Mestre em água fresca que limpa os pés de outros e em olhar de chão até ao rosto incomodado de discípulo. Cumpre-se a Palavra. Aproxima-se a hora. Anoitece. O Senhor ama os seus, todos, até ao fim.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Educação




Rahul Talukder

[Secção pensamentos soltos] Surge mais um tema de longa discussão social: os 1000 estudantes que foram expulsos. As reacções mais díspares surgem, entre a reprovação, indignação, normalização, patriotismo, vergonha alheia, etc.. Mais uma vez, instala-se o comentário perdido pela comunicação social, sem que se avance para reflexões profundas sobre a Educação. Daqui a dias já se falará abundantemente sobre outro assunto qualquer, esfumando-se este.

Isto não é novo. Dando um pequeno exemplo, há cerca de 25 anos, quando abriram grandes empreendimentos na Praia da Rocha, centenas de adolescentes e jovens adultos iam lá passar a passagem de ano a preços baixíssimos. Depois, começaram também as viagens de finalistas. Ainda me recordo de estar no 12.º ano, há precisamente 20 anos, e rir com um cartaz, afixado lá na escola, com publicidade para viagens de finalistas na Praia da Rocha… para quem não sabe, sou de Portimão. Já nessa altura se ouvia comentários sobre a selvajaria da ‘geração rasca’ que abria extintores, atirava colchões ou os próprios para a piscina de altos andares, arrancava candeeiros, espalhava bebidas pelos apartamentos, partia vidros e espelhos. Afinal, o modo como alguns celebram na actualidade o finalizar do 12.º não é tão original quanto isso. A originalidade reserva-se às redes sociais onde publicam vídeos e fotos vangloriando-se de “grandes feitos”, provocando com que se ponha tudo o que é estudante na mesma categoria de vândalos e afins.

Todos temos algo de responsabilidade na evolução social. Todos participamos da sociedade… seja a formar-se no melhor que se pode, com as capacidades que se tem, divertindo-se e festejando de forma animada e descontraída, sem necessidade de excessos alcoólicos e de nenhuma violência, seja, por exemplo, a consumir programas sensacionalistas que convidam ao “não faço nada para além de dizer uns palavrões, agredir alguém, e sou famoso”. Depois, já há muito que é comprovado, o efeito grupo tem muito que se lhe diga. A boa educação, mesmo em situações adversas, acaba por ser uma opção. E, podendo ser importante, o dinheiro não é nem fundamental, nem “a” questão para se ser bem-educado.

Os factores medo, cansaço, falta de tempo, comparação e orgulho impedem o reconhecimento de que algo pode ir mal na educação que começa em casa. As regras do respeito e do reconhecimento de que há uma realidade que vai para além do umbigo pessoal são fundamentais. Dar todas as coisinhas para “comprar” os filhos, pelo tempo que não se tem ou das frustrações que não são vividas, integradas ou ultrapassadas, dão resultados terríveis. Os pais que se amam a si mesmos e amam os filhos sabem e vivem os tempos próprios de criança e adolescente, sem ânsias de que sejam adultos à força e mostrando, dentro da liberdade, as balizas que os ajudam a crescer humanamente. Esse crescimento inclui as festas, em celebração, e as viagens que animam sem necessidade de destruir.

Talvez não seja notícia, mas, felizmente, também aumenta o número de estudantes que fazem voluntariado interessando-se pela humanização do outro. Seja como for, deixe-se de brincar com a Educação.



Quarta-feira da Semana Santa






[Secção outros tons - especial quarta-feira da Semana Santa] O rosto endurece com a injustiça que não se cansa de se actualizar. Refinada em moedas de prata que compram as horas escurecidas pela miséria da corrupção e da hipocrisia. "Serei eu?" A resposta atravessa todos os corações que expiam pecados no alvo do dedo apontado ou na pedra por jogar.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Terça-feira da Semana Santa





[Secção outros tons - especial Terça-feira Santa] Das entranhas sai compaixão, em identidade formada desde o início dos tempos. A confiança alicerça-se em quem é com o Pai, na Sua forma justa de amar. Olhando à volta, o silêncio do pão molhado prepara as moedas da denúncia e a negação de quem se sente perdido. O véu estremece com a escuta da partida.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Segunda-feira da Semana Santa





[Secção outros tons - especial segunda-feira da Semana Santa] Silenciei o momento em que o perfume de bálsamo se espalha pelo mundo, sentindo o toque das mãos que reconhecem a hora. As moedas perdem o interesse da paga. Outras virão que condenarão. No entanto, a luz esperada libertará o amor pleno.


Na foto: palavras de Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 9 de abril de 2017

Domingo de Ramos






[Seccão outros tons - especial Domingo de Ramos] Começa a chegada da hora. Os lugares de físicos passam a ser de palavras e de gestos. "Eu sou", em eco de presença de crua humanidade. "Nós somos", torna-se esperança... de momento silenciada. 

Na foto: palavras de Daniel Faria.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Moralismos que não se quer





Sidhartha Bardoloye

[Secção desabafos] Para se compreender algumas separações, distingo moral de moralismo. A moral é antropológica, nessa consciência de que os actos podem ser bons ou maus. O moralismo é a cegueira farisaica que, em nome das aparências, mantém a opressão. Os exemplos nos Evangelhos são muitos. Infelizmente, em pleno século XXI ainda há outros tantos exemplos de moralismo. As situações de violência doméstica são de grande complexidade, sobretudo pelo modo como as vítimas as vivem. Não há dúvida de que a separação entre a vítima e o agressor é o grande passo. Nada legítima qualquer tipo de agressão a alguém. E é de grande tristeza que se possa dizer a uma vítima coisas como “o amor aguenta tudo”, “Jesus também sofreu muitas injustiças”, “se casaste foi tudo incluído no pacote”, “isso é tudo fantochada para chamares a atenção”, e outros “mimos” que tais. Tristeza é pouco, é nojento. Mais o é quando quem o diz é alguém que se diz de Igreja. Aí, está mesmo em pecado. Ficamos chocados com as situações mais dramáticas que são noticiadas. Mas há muitas que se ficam pela calada… em que, em nome do moralismo ou paz podre familiar, os agressores directos são apoiados por indirectos. A partir do momento que se entra na violência, nunca incluída em nenhum sacramento, deixou de haver amor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Subtilezas de Primavera






[Secção outros tons] Quando uma tulipa desperta a beleza de amor-perfeito, em cores de Primavera, vestem-se campos de novos tempos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Recordações...






Chegam recordações de momentos bonitos e felizes... com o padre a pedir "beijinho" aos esposos novos.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Educação



Em final de período, onde infelizmente há referências a agressões a professores, é de relembrar a importância da Educação. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Coisas... e fotos.






[Coisas na vida de um padre] "Stôr, tire uma foto comigo." E é isto... ;)

Amor em liberdade




Amir Cengic

Não podemos mudar o passado. No entanto, a riqueza do estudo e do conhecimento da história permite-nos perceber o que é possível agradecer ou mudar no presente. Falo de história pessoal e, chamemos-lhe, comunitária. Cada um de nós recebe influências de tanta realidade. Isso significa que temos de estar presos para sempre? Não. Tenho pensado nisto com ajuda das fortes e bonitas passagens do Evangelho de S. João dos últimos domingos. Nos três, a partir da água [samaritana], da luz [cura do cego] e da vida [ressurreição de Lázaro], é intenso perceber o quanto somos chamados por Deus à Liberdade do que nos oprime e impede de sermos nós mesmos fonte de água, luz e vida. Pensando em Lázaro: Que pedras nos encerram em túmulos de medos? Que escuridões provocam reacções de defesa ante algo ou alguém que nos toca em feridas com nomes concretos? Que ligaduras de histórias mal-contadas ou de culpabilizações nos impedem os movimentos? É fascinante como Jesus, emocionado, mostra o seu amor pela humanidade, tocando nos pontos centrais que impedem o nosso crescimento pessoal e comunitário. “Lázaro [ou cada um dos nossos nomes], sai cá para fora!” Sente-se que Deus tem grande desejo no amor em liberdade de cada ser humano.

sábado, 1 de abril de 2017

Pregações




A pregar aos casais das Equipas de Nossa Senhora: "Ser casal: ossos dos mesmos ossos, carne da mesma carne... vida da mesma Vida".

Asas...




Há pouco comentei que os meus voos são outros. Ainda assim, as asas ficaram... e estendem-se ao infinito, ajudando outros a voar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Abertura de horizontes





Danish Siddiqui/Reuters


[Secção coisas] Se há coisa que, como padre e professor, proponho é a abertura de horizontes. Implica regras? Sim. A liberdade implica regras. Viver em sociedade de forma anárquica é ir contra a natureza humana que, mais que não seja a partir da dor, tem consciência do bem e do mal. A abertura de horizontes amplia as regras do respeito e da percepção do quanto há tantos preconceitos e estereótipos a eliminar, sobretudo, no modo como se olha para as diferenças na humanidade. Esta noite vou falar a um clã de Escuteiros sobre “espiritualidade no quotidiano e na vida”. Amanhã e domingo, orientarei um retiro a casais. Pediram-me um tema. Dei-lhes este: “Ser casal: ossos dos mesmos ossos, carne da mesma carne… vida da mesma Vida!” É isto: promoção de abertura de horizontes, com reflexão e sentido de serviço na humanização do mundo.

terça-feira, 28 de março de 2017

"Alentejo Prometido"




[Secção leituras] Acabei de ler "Alentejo Prometido" de Henrique Raposo. Aquando da sua publicação, li bastantes críticas ao livro. As boas... e as que chegaram ao ponto de "pedir a cabeça" do autor. Vou conhecendo o seu estilo pelas crónicas no Expresso e Renascença, percebendo que não é amado por muitos que destilam ódio nas caixas de comentários. Sou daqueles que não se fica pela opinião dos outros. Surgem-me as perguntas e, com tempo, tento, se me for possível, fazer o caminho e formular opinião. Um livro que fala do Alentejo, de onde é natural o meu lado materno familiar. Logo, tema que me toca. Li... e começo a perceber onde o autor quer chegar. Há feridas que não se gosta de tocar. As páginas passam e, apesar da dureza, fazem sentido. Sai-se da poesia dos campos primaveris floridos ou dourados de Outono e entra-se no que será o Inverno humano. Não apetece reconhecer de onde vem a dor, mas se não se investiga e afirma ficamos no auto-engano. Talvez o género literário possa sugerir uma projecção da vida do autor, no entanto, é um meio... com o qual eu mesmo poderia colocar outros nomes que conheço. Recordo a minha querida avó Constança falar-me das divisões na Missa: lavradores à frente, sentados em lugares especiais, povo, mulheres sobretudo (ou somente), atrás e de pé. Suicídio, sim, muitas histórias partilhadas. Dificuldades em viver ali, no sol-a-sol da monda ou ceifa, com idas para o Algarve (hotelaria sobretudo) ou sul do Tejo. O livro é duro de real de uma grande parte da população. Talvez esteja em mudança, não conheço para opinar. Mas, das histórias que recebi, o Alentejo de que gosto, humanamente falando, claro, não é dado a muitos romances. Para haver um caminho de cura, de mudança, há que reconhecer o podre, o menos bom, o que não se gostaria de enfrentar. Do que li, mesmo não me identificado com o seu sentimento de não pertença, parece-me uma boa ajuda à Marta e, em especial ao David, a seguirem o caminho da mudança.

Discurso




Foi uma honra discursar para mais de 200 alunos universitários a quem foi atribuída uma bolsa de estudo. Falei do meu sonho de criança, ser veterinário, e das voltas que a vida dá até ser padre (o momento que provocou a reacção de surpresa). Falei-lhes do presente que são e das possibilidades sempre em aberto de mudança do mundo para melhor, com as possibilidades de descobrir rumos novos e abertura de horizontes pelas visitas a sites como UNESCO, Nações Unidas e Comissão Europeia

Apagar fogos...





[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] A última vez que apaguei um fogo físico (os de alma e de relações são muito mais frequentes) foi há 16 anos num refrescamento como comissário de bordo. Hoje voltei ao extintores... numa formação de prevenção. A boa formação na PGA continua bem presente. É caso para dizer "padre on-fire".

domingo, 26 de março de 2017

Rezar com a Dança




“Não esperava que fosse possível chegar tão profundamente a mim através do movimento.” Esta foi um dos “sentires” dito no final de mais um Rezar com a Dança. Desde sexta à noite até hoje ao almoço, 7 pessoas confiaram-se à Maria Luísa Carles e a mim, neste caminho de descoberta de corpo, de dança e de relação com Deus. Por conversas que vou tendo, quando falo desta relação, apercebo-me desde a surpresa aos estereótipos seja sobre a dança, seja sobre o rezar. Enquanto corpo que somos, impressiona-me como ainda se bloqueia ou reduza a dimensão biológica/física, louvando a dimensão intelectual colocando-a no pedestal de supremacia. A maturidade acontece quando as nossas dimensões estão ajustadas e o movimento habitando de consciência autêntica, vulgo dança, permite que tal aconteça. Foi uma feliz coincidência termos vivido o fim-de-semana na solenidade da Anunciação e no domingo da Alegria. Foi bastante intenso. Ainda mais quando se juntou a nós um grupo de partilha sobre a experiências de luto. O corpo em movimento fala muito da pessoa. Exige atenção para ajudar a evoluir nesse encontro com Deus, da dor à alegria. Se estivermos atentos ao nosso corpo, à nossa autenticidade, veremos, tal como o cego de nascença que foi curado (o Evangelho proposto para hoje), a nossa realidade e a de outros com nova luz.

sábado, 25 de março de 2017

Mão em movimento





Neste dia da solenidade da Anunciação, em que oriento, junto com Maria Luísa Carles, um tempo de Rezar com a Dança, 23 segundos de mão que se entrega e reza.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Humano




[Secção entardecer de quaresma] O corpo é quem sou. Ou agradeço e caminho à Vida. Ou estagno e sobrevivo às horas. 

Na foto: poema de Adélia Prado.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Londres... ou qualquer outro conflito.




Os atentados mais próximos relembram todos os outros distantes. Em conflitos, no final, nunca há vencedores. Todos perdemos. Que a luz consiga atravessar a sombra... que assola a humanidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia




Tomasz Tyrka

[Secção entre pensamentos soltos e outros tons] A poesia, falando de oração, tem-se tornado constituinte do meu modo de olhar a vida, o mundo, o ser humano. Fico sempre naquele limbo do inexplicável, que por vezes o silêncio é a melhor resposta. No entanto, deslumbra-me saber que as palavras dão corpo a esse silêncio apenas compreendido por quem sabe parar no caminho e contempla os nadas de fora e o tudo das entranhas. 

Levanta-se o pó,
humedecido com lágrimas  
felizes de paternidade.

Molda-se o coração em escuta
deixando crescer o tempo
de passagem do corvo
até ao ramo de oliveira.

Entrelaçam-se as mãos
de sim misterioso anunciado
em aroma de puro nardo.

E louvando o prémio, mais um justo e merecido, que Maria Teresa Horta ganhou, partilho igualmente um poema, do seu romance “Anunciações” que me faz tanto sentido:

Asas de Poesia

Olhou as suas asas de arcanjo
uma de luto
outra de dia

uma cruel
outra de perda

uma de negrume
outra de meio-dia

E quando Maria
entendeu as palavras
de crivo que lhe eram ditas

começou a criar a sua
identidade própria

a partir da poesia

domingo, 19 de março de 2017

Samaritana





D. Von Schoen

Em dia do pai, Jesus mostra como a paternidade passa pelo reconhecimento da dignidade do outro para além de tudo o que possa ter feito. Como? Pondo a liberdade para além de esquemas mentais, morais e preconceitos religiosos, que se leia, reze, contemple, o encontro d’Ele com a Samaritana. A subtileza das palavras no diálogo desse encontro mostra como acolhe a Mulher que muitos rejeitam (naquele tempo e provavelmente na actualidade), tornando-a discípula e evangelizadora de quem Ele é.