terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lã de ovelha




Michael Buholzer/reuters

[Secção pensamentos soltos, a pensar na passagem evangélica de hoje] A lã da ovelha perdida e rejeitada é mais agreste [do que a das que sempre se sentiram encontradas, estando, sem darem conta, perdidas no seu orgulho e na sua ingratidão] porém, aquece como o perdão.

Um presente





[Coisas na vida de um padre] “P. Paulo, temos um presente para si.”, disseram-me as “meninas das pochetes”! (A piada está no nome de turma que ficou desde há dois anos depois de, na brincadeira, as ter baptizado assim por estarem todas de pochete.) [As letras do “obrigada” são elas mesmas.]

sábado, 9 de dezembro de 2017

Breve oração ao entardecer






[Breve oração no entardecer] 

Recolho as memórias, mesmo difusas, e entrego-Tas. Toma cada uma, peço-Te, e reveste-me de agradecimento. As felizes: que iluminem mais. As tristes: que se diluam na luz das felizes. As dolorosas: que sejam curadas pelo amor da vida em terra fértil semeada.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Onde estás?




Takashi Ishizaki

[Secção pensamentos soltos] Nas minhas orações e pensamentos soltos, surgem algumas vezes ideias sobrepostas entre a visão global das coisas e o pequeno, o do dia-a-dia, do quotidiano. Entre muitas outras coisas, contribuem as conversas, banais, sérias, de confissão ou corredor, como as leituras, de livros, crónicas e afins. Depois, a minha história pessoal no meio disto tudo, com as distintas relações que tenho. Faço silêncio. Muito silêncio. Aliás, desde há tempos que necessito de maior tempo e espaço de silêncio para digerir as informações que vou recebendo. Não é preciso ser grande especialista para perceber que o mundo está em tensão. No entanto, alguma vez deixou de estar? Em conjunto com “Silêncio na era do ruído” de Erling Kagge, estou a ler o “Sapiens - História breve da humanidade” de Yuval Harari. É interessante perceber esse encontro com o individual e o comunitário. Na leitura quase espiritual sobre a importância do silêncio vejo a humanização que nos pode levar ao essencial do amor próprio. Já “Sapiens” desafia-me ao questionamento sobre a ânsia de poder derivada do instinto de sobrevivência animalesca que milhares e milhares de anos depois continua nas entranhas de cada um de nós. A questão: como é que cada um lida com isso? Pois, silêncio, amor próprio e os outros. Hoje mesmo, a propósito da celebração da Imaculada Conceição, a leitura do livro do Génesis apresenta-nos a primeira pergunta de Deus no texto bíblico: “Onde estás?” Ao ler as notícias de política internacional, mas também a saber de mesquinhez e mentes pequenas em ambiente aldeia (que pode ser do tamanho de Portugal), não deixo de ficar pensativo sobre este desejo de encontro divino. Há dias, em conversa, alguém me dizia: “de que serve ir a muitas missas se quem lá vai rejeita-me constantemente?” Não falava da generalização fácil, mas de exemplos concretos. Parece-me que milhares de anos depois dessa intuição de escrita “onde estás?”, a pergunta continua extremamente actual. De tal maneira que a encarnação acaba por ser uma resposta. “Vou ao teu encontro”, quase se ouve Deus dizer em eco à sua própria pergunta. Um problema constante entre nós, pessoas de enorme complexidade, é a falta de encontro, de empatia, de se saber que o outro é e será sempre diferente de mim. Por isso, não tenho o direito em formatá-lo a um determinado modo de agir ou pensar. É a diversidade e a liberdade que cria humanidade, não a uniformidade e a castração de pensamento. A humanidade é igualmente criada por uma comunidade de unidades, ou seja, pessoas com dons distintos postos a render, sem necessidade de provas ou lutas de poder ou de afirmação de identidade. O “faça-se” de Maria é resposta a essa busca de encontro, onde se aclara a consciência de que o divino não busca a opressão, o controlo, a condenação, mas a libertação, a salvação. Milhares e milhares de anos depois, já começa a estar na altura de elevar o ser para além do poder animalesco, onde cada pessoa, ao seu modo, pode dizer “faça-se em mim” caminho de liberdade. Para isso, o silêncio, o amor próprio e aos outros são imprescindíveis.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lágrimas




Melissa Cormican

[Coisas na vida de um padre em quotidiano escolar] Passava por um corredor. Olhei para uma sala. Alguém escondia as lágrimas com o capuz. Aproximei-me. 
- Quer falar?
Meneou a cabeça em negação.
- Daqui a pouco começam a chegar os seus colegas. Venha comigo.

Fomos para o meu gabinete. Acendi a vela e sentámo-nos. As lágrimas continuavam.
- Não precisa dizer nada, nem retrair as lágrimas. Tome o seu tempo.
Enquanto eu falava, mais lágrimas caiam. Densas, de quem já as guardava há muito. Não sei quanto tempo passou. Apenas estávamos, em silenciosa presença e na certeza de que não ficaria só. Há lágrimas que não querem palavras, apenas companhia. Ao ver a calma a estabilizar:
- Quer ficar mais um pouco?
- Já posso ir. Obrigado.
Tirou o capuz, demos um abraço e voltou para a aula. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Quem dera




Thiruvananthapuram


[Secção desabafos sobre educação] Quem dera que as notas fossem perdendo a força de essência numa escola. Que se percebesse que ensinar vai para além de estruturar em conhecimentos técnicos e académicos, ajudando a que os dons de cada pessoa, educando e educador, sejam o primordial, sem competições de impossível, para a colaboração do possível. Quem dera que quem decide matérias a ensinar tomasse consciência que tanto educador como educando são pessoas e não máquinas. Quem dera que se pudesse perceber que o intelecto vai de mãos dadas com o humano e com o espiritual, permitindo o sentido crítico pessoal e social, vivendo assim a relação que constrói comunidade e respeita o próximo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Advento: preparar a luz




Ali Hamed Haghdoust


[Secção pensamentos soltos] O Advento ajuda-nos a preparar o nascimento da Luz que vem novamente iluminar novas perspectivas de humanidade. Em sol que nasce para todos, vem eliminar a antiga separação de puros e impuros, de elevados e rebaixados, de melhores e piores. Diante de Deus, dissolve-se toda e qualquer separação de humanidade. No entanto, Ele continua a precisar de nascer, de fazer-se carne como nós para nos resgatar de toda a divisão. Seria mais fácil, mais mais desumano, se vivêssemos em bolhas, onde gente aparentemente pura nem se aproximava da impura. Esta pureza pode ser retratada, não só em termos de higiene, como em modos de pensar ou de viver. Há que afastar das pessoas da má-vida, para não se ser corrompido com maus exemplos. Mas, que melhor exemplo podemos dar para além da proximidade no respeito pelo outro? Há dias vi um cartoon: uma mãe dizia ao filho pequeno ao ver um pedinte: “estuda muito para não teres uma vida como a dele.” Outra mãe, ao lado, dizia ao filho pequeno ao ver o mesmo pedinte: “estuda muito para ajudares a sociedade a ser melhor sem rejeitares ninguém.” É esse iluminar que tanta falta ainda faz.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Haja Deus!




Tomasz Solinski

[Secção coisas na vida de um padre] Ontem presidi a Missa vespertina na comunidade de um grande amigo. Partilhei a pergunta que me faço em cada início de advento: como viver este advento de modo a que o Natal não seja mais um no calendário? O Natal, sabemos, tanto tem de mágico, maravilhoso, e tal, como de terrível, onde muitas pessoas avizinham sofrimento, em especial, por questões familiares. Assim, o disse também: que fazer para que este Natal seja possibilidade de reconciliação? No final da Missa, vêm ter comigo umas quatro ou cinco pessoas, uma delas bastante emocionada. 
- Padre, as suas palavras tocaram-me fundo. Sabe, tenho três filhos. O mais novo pediu-me a escritura do apartamento para pagar umas dívidas. Disse-lhe: “filho, e com 82 anos que faço? Vou viver na rua?”. Deixou de me falar. Ao ouvi-lo na pregação, senti tão forte a mão de Deus e pensei: “vou telefonar ao meu filho.”
- Agradeço por partilhar comigo. Faça o que pode. Se sente que deve ligar, ligue. Se ele não responder, sabe que fez o que teve ao seu alcance.
- Obrigado, Padre. Vamos ver. Que Deus nos ajude. 
Passado uma hora, estando de conversa com o meu amigo, ele recebe uma chamada.
- …sim, até está aqui ao meu lado… …ahh, que bom… …que alegria… Obrigado por partilhar. Abraço Grande. Bendito seja Deus. [Desliga e olha-me com um grande sorriso.] Foi alguém falar contigo no final da Missa com dificuldades de relação com um filho? Pois, era ele ao telefone. Queria que te dissesse que depois de sair da Missa, encontrou-se com o filho à porta do supermercado. 6 meses depois, encontraram-se. O filho disse-lhe que já andava para telefonar há tempos, mas não se sentia com coragem. Encontraram-se hoje, deram um abraço e o filho pediu-lhe desculpa pela atitude e combinaram conversar. Haja Deus!
- Haja Deus!
Senti o verdadeiro sentido de Natal a acontecer mais uma vez.

Advento




[Secção outros tons - especial início de Advento, em dia de S. Francisco Xavier] Chego para partir em nova luz. É tempo de escutar a vinda, renovando a vida. Em mar de emoções de encontro que transforma é preciso respeitar as horas de cada uma. A seu tempo dão fruto de crescimento, até que tudo seja iluminado pelo sol que gira sem cessar sobre aqueles que amam.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Caminho de humanidade




Narciso Contreras

[Secção pensamentos soltos] Expressões como “deves de achar que sou preto!” e similares, traduzem o que vai no inconsciente colectivo sobre o que significa ser “preto”, a saber, escravo(a), criado(a), etc. e tal. Nem vale a pena dizer, “oh, é a brincar. Nem sou racista.” Ok, então que se pense com calma na expressão, sabendo que a linguagem tem força, e deixe-se de dizer. Com as recentes, assustadoras e vergonhosas notícias sobre a venda de escravos na Líbia, em conjunto com tantas experiências sociais que revelam o racismo encapotado, percebe-se mais uma vez a importância da reflexão séria sobre o que é ser humano. Percebe-se também o porquê de milhares de pessoas desejarem fugir de países que as aniquilam como seres humanos, tornando-as instrumentos de trabalho. Na homilia das Missas de Turma que celebrei há pouco, recordava como facilmente podemos ter ídolos que nos cegam humanamente, tirando o peso da dignidade e dividindo-nos. Por exemplo, o dinheiro e o poder. Acrescento, a diferença, numa supremacia branca que demarca seres superiores e inferiores. A história ensina-nos que houve péssimos entendimentos de humanidade. Tal, continua. Tristemente continua. Não tenho assento em locais de decisão política, mas, nos de educação, sim. Assim, que se viva o educar, independentemente da idade, para a linguagem e para o respeito pela diferença, dando os passos possíveis no caminho para humanidade. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Contra a desonestidade intelectual





Stefano Rellandini/Reuters

[Secção pensamentos soltos] Tenho dificuldade com polémicas. Em geral, surgem de incompreensão, desconhecimento e fazem sempre mal. Como a seu tempo escrevi, incomodou-me bastante a atitude do grupo que publicou a “Correcção Filial” ao Papa Francisco, acusando-o de herege. Não sou apologista de se aceitar tudo cegamente. Nem o Papa quer ser idolatrado. Ele conhece bem o mandamento “Amar a Deus sobre todas as coisas”. No entanto, quando há desonestidade intelectual, há que denunciar. Fazer uma lista de signatários onde constam nomes à revelia da própria pessoa ou de pessoas fictícias, mostra o quanto não se está a pensar no bem da Igreja, mas numa posição fundamentalista da realidade. É verdade que se quer um deus à medida, também passo pela tentação, mas, por favor, não o imponham a ninguém por caminhos sinuosos. Releiam, com calma, o Evangelho, em especial detenham-se na Paixão. Verão que quem condenou Jesus à morte foram os que queriam um deus à medida dos seus desejos de poder e separação. Não aguentavam a certeza da universalidade de Deus, nesse Seu Amor, único, em especial pelos rejeitados. 


Silêncio




[Secção boas leituras] De Erling Kagge, em “Silêncio na era do ruído”, p.46. 
Bom dia!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Breve oração antes de adormecer




Masahiro Hiroike

[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço-Te o silêncio, enquanto voam as folhas e as horas.
Peço-Te que me guies nas palavras em desejo de amar,
tornando límpido o gesto de acolhimento. 

Sapos do ano 2017




[Secção surpresas] Recebi ontem um mail que me deixou com grande sorriso. A Magda Pais, do blog StoneArt Portugal, escreveu-me a dizer que aqui o'insecto foi nomeado para os Sapos do ano 2017. Ou seja, o reconhecimento de blogs menos conhecidos. O prémio, pelo que consta, será um pacote de açúcar extra no jantar de bloggers, além de, obviamente, dar a conhecer as coisas boas que vão sendo escritas e partilhadas por essa blogosfera. Por isso, partilho o link do post da Magda e assim ficam a conhecer todos os outros blogs nomeados. A votação começa amanhã. 

domingo, 26 de novembro de 2017

Creio em ti




D.H./Associated Press

[Secção outros tons - especial Cristo, Rei do Universo] Silêncio. Observo o gesto de mão aberta de onde sai um copo de água, um pedaço de pão, uma peça de roupa, o movimento a acompanhar o passo de visita, dando cura com a vida e o abraço que não julga mais quem já foi julgado. Quem me terá tirado a sede ou a fome? Também eu fui vestido e reconciliado. Luz que ilumina nova oportunidade. Deus não se cansa de bater à porta e esperar. Deus não se cansa de me pedir que seja Deus com Ele. As horas serão de festa. A porta abre-se. Em silêncio, observo a mão aberta pedindo a minha. Os braços descruzam-se. Recebo-te. Dou-te a mão. Escuto: “Creio em ti.”

sábado, 25 de novembro de 2017

Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher




Sjiny G./Reuters

[Secção pensamentos soltos em Dia Internacional de Eliminação da Violência contra a Mulher] A propósito das minhas visitas a pessoas detidas no Centro de Internamento de Estrangeiros em Madrid, fiz uma formação com a ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados] sobre o tráfico humano, em especial de mulheres, para escravidão sexual. Os números são assustadores. Os grandes países de “consumo”: França, Alemanha, Espanha. Mas toda a Europa é porta de chegada de “sonhos de estudo e vida melhor”. Isto na saída de lá, das suas terras. Depois, à chegada, transformam-se em pesadelos de vidas anuladas em consumo sexual, com as ameaças de assassinato de toda a família. Instala-se o medo. É sempre o medo que envolve a vítima. Seja violência física, específicamente sexual, seja psicológica, são muitas as mulheres que ainda perdem totalmente a vida. Se não a perdem totalmente, a sua dignidade é gravemente diminuída com o desdém da sociedade ante a desvalorização de tantos casos de violência. Ainda mais quando são crime público. Recordo uma das Missas em que abordei o tema da violência doméstica na homilia. Nem conhecia bem a comunidade, por isso, ainda me sentia mais livre em fazê-lo, sem que houvesse a sensação de poder estar a dirigir-me a alguém. O silêncio era cortante. No final, na despedida à porta, muitas mulheres apertaram-me a mão com um “obrigado” acentuado. Infelizmente, a violência está mais presente do que se imagina. Por isso, infelizmente, ainda temos de recordar este dia, como caminho educativo e de ajuda.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Breve oração antes de adormecer




Danny Wong

[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço-Te o vento, nesse antecipar de chuva 
necessária ao respiro de terra que somos.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Mimos





Nattu Adnan

[Coisas na vida de um padre em quotidiano escolar] No pátio, a caminho do recreio, um aluno com 9 anos encontra-me e lança conversa:
- P. Paulo, é difícil ser padre?
- Depende dos dias.
- Também tenho dias que não gosto de sair da cama.
- É isso mesmo. 
- Mas, em geral, gostas de ser padre?
- Tu, que me vês diariamente, o que é que achas?
- Oh, que gostas, e muito, de ser padre e de todos nós. 
E seguiu caminho aos saltos e eu fiquei com riso agradecido pelo mimo inesperado. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dar o melhor de si




Eric Harris

[Secção pensamentos soltos] Um dos grandes perigos da actualidade é o da comparação desmesurada, impedindo de ver a riqueza de cada pessoa. Reduz-se a existência à medida que a sociedade impõe: “Tenho de ser o/a melhor”; “O meu filho tem de ser o melhor”; “A minha filha tem de ter esta ou aquela profissão”. Se assim não for, é como se não fosse digno(a) de ser. Digo muitas vezes aos alunos (e aos pais… especialmente aos pais) para terem muito cuidado com as comparações e competições. Há pessoas para quem a nota máxima não é, conforme a etapa que está, um 5 ou 20. Há pessoas que um 57% é 100%. Estamos em tempos em que socialmente corre-se o perigo de todos terem de ser os melhores. Mas, melhores em quê? Todos temos de ser os melhores de nós próprios, conforme a capacidade de cada um. Parece que só há dignidade de ser pessoa com um título antes do nome. De que adianta isso se humanamente, no trato ao próximo, é-se execrável ou ressabiado? Efeitos das comparações de intelecto ou de corpo: entre outros, frustração e anulação de si. A força reside na alegria de se dar o melhor, de se superar dentro das suas capacidades. Pais, não façam dos vossos filhos troféus. A todos, que sejamos capazes de ter tempo para descobrir os talentos e pô-los em prática, dando cada um(a) melhor de si.

domingo, 19 de novembro de 2017

Dia Mundia dos Pobres




[Secção outros tons - especial Dia Mundial dos Pobres] Deixo de ser pobre quando vejo no outro a pessoa que é. Não a nacionalidade, o cheiro, a cor ou o dinheiro. Arrisco a ir ao encontro pela qualidade de ser. Partilho o que tenho: um pedaço de pão, conversa, música ou oração.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Castidade




Ricardo Moraes/reuters

[Secção desabafos] Em Igreja (e em sociedade) ainda há tanto caminho a fazer para perceber a riqueza e beleza do corpo. Enquanto se formar ao nível da castidade como caminho de pureza angelical, andar-se-á com máscaras atrás de máscaras puritanas na elevação sacerdotal, distorcendo o sentido da entrega total de serviço e amor ao próximo. Os piores inimigos: o auto-engano e projectar o problema nos outros.

Cadeira Vermelha




[Secção actividades escolares e mundo] O Papa Francisco pediu a toda a Igreja que o próximo dia 19 fosse dedicado a pensar nos pobres. No Colégio antecipámos para hoje. Este dia foi preparado pela Comunidade Educativa ao longo das duas semanas a partir do projecto Cadeira Vermelha (La Silla Roja), promovido pela Entreculturas, ONG espanhola dos jesuítas. Este projecto junta Educação e Desenvolvimento Social e Humano, em especial com crianças e jovens, alertando para os cerca de 246 milhões no mundo que não tem escolaridade: conflitos, trabalho infantil, falta de condições de ensino. Cada turma tinha uma cadeira. Antes de a pintar/decorar, faziam uma reflexão sobre toda esta problemática. Agradecer, antes de mais, a possibilidade de aprender. Depois, como essa boa aprendizagem a todos os níveis já é uma ajuda ao desenvolvimento social, podendo contribuir para a diminuição da pobreza. Hoje entregaram as cadeiras e a comunidade educativa fez um minuto de silêncio de pé, levantando-se contra a pobreza. E, assim, continuamos em caminho educativo de humanização.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Outono




Dia Mundial da Filosofia




Esta tarde, em celebração do dia mundial da filosofia, foi promovido um Café Filosófico com alunos de diferentes anos do terceiro ciclo, com a disciplina de Pensamento Crítico, e do secundário, com a disciplina de Filosofia. Numa grande roda de discussão sobre “Os Jovens: que geração no século XXI”, foi muito interessante ver como os alunos apresentavam as suas opiniões e argumentos. Começou com reflexão sobre a tecnologia (estar todo o tempo ao telemóvel, as redes sociais, as vantagens e perigos da internet), passando pela diferença inter-geracional, liberdade, religião, respeito pela diferença, etc.. Em ambiente bastante tranquilo, um(a) e outro(a) iam apresentando as concordâncias e discordâncias, com respectivos argumentos. Uma sociedade para ser livre tem de saber pensar. Quem sabe pensar, sabe que a educação que forma para o pensamento com sentido crítico é fundamental para a liberdade e para a humanização. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Encontro místico




[Secção pensamentos soltos] Tenho para mim que a experiência de encontro místico reveste-se de entardecer. Aquele lusco-fusco que encaminha para o ocaso de ideias, projectos, falhas, pecados, misérias, tristezas. Entra-se no silêncio que convida desvelar toda e qualquer visão de adereços, cingindo-se a escutar, sem julgamento primário e condenatório, o Ser que se é. Talvez por isso a noite incomode. Talvez por isso a noite liberte. É outra face da Vida. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Sombra e luz




[Secção outros tons] Luz em cada canto sombrio: clarifica o que é desconhecido, dando-lhe nome e, sem julgar, busca amar.

sábado, 11 de novembro de 2017

Memórias




[Secção memórias] Nestes últimos dias tem havido troca de mails entre animadores de um Campo de Férias de há 10 anos: o Melgas I 2007. E eis que a memória se desperta para tantos momentos do Campo. Entre o dia mais quente do ano durante a caminhada (ah, foi em Ponte de Sôr, Alentejo profundo, portanto), a virose que surgiu atacando todo e qualquer intestino, houve muita animação e boas partilhas a partir de tanto, como dos sonhos realizados pelas equipas, de jogos e reflexões sobre a vida. Desde lá muito aconteceu. Por exemplo, a entrada na Companhia de Jesus de um participante deste Campo. Não sei o que pensava no momento da foto. Hoje, sei que, diante das memórias, é de continuar a agradecer o muito vivido.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Dignidade recíproca




Theerasak Saksritawee

[Secção desabafos] Estão muitas mulheres a revelar o assédio a que foram sujeitas. Mais ou menos subtil ou totalmente descarado, foram vistas como objectos de prazer em mundos que (ainda) não compreenderam o respeito pela dignidade recíproca. O meu parêntesis no “ainda” deve-se aos comentários tipo: “na altura deu jeito para a fama, agora é que falam”, “quando precisaram não disseram nada” e outros “mimos” que tais. Houve muitas que não falaram e suicidaram-se. Outras tantas, que foram rejeitadas pelos próprios que delas abusaram e, depois, pelas famílias, aguentando como “mulheres-coragem” a vida e filhos bastardos. Ainda as há que, sim, evoluíram na carreira e, estando já mais seguras, resolveram dizer basta em nome das que continuam a ser sujeitas à objectifiação do ser mulher. Na altura era “normal”. Afinal, quantos séculos foram necessários para que uma mulher pudesse ser considerada cidadã com direito de voto? E correr numa maratona sem ser escorraçada a empurrões e pontapés? E ser, por exemplo, motorista da Carris sem ouvir piadas de colegas e de passageiros? (Este último exemplo contou-me há simplesmente 15 anos uma motorista.) Volto ao mesmo: os crimes de violência de género são públicos. Há responsabilidade social sobre tudo isto. Não são elas que “se põem a jeito”, é cada um de nós que tem de se ajeitar à educação pela dignidade recíproca.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Educação



Sílvia Lobo

[Coisas na vida de um padre] Celebrámos hoje a Missa de S. Nuno, padroeiro do Colégio das Caldinhas. Vivo o terceiro ano na missão de coordenar a Pastoral deste Colégio, grande complexo educativo de 5 escolas cheias de humanidade. Têm sido anos de desafios, grande parte deles inesperados, e de muito agradecimento, em especial pelas obras que cada educador põe em prática na exigente missão de educar, seja na docência, seja nos diferentes serviços de não-docência. A educação integra as várias dimensões do ser. Enquanto escola, cabe-nos complementar a educação primeira dada em casa com as letras (o racional/intelectual) e as virtudes (o racional/humano-espiritual). Cada turma preparou a Missa oferecendo uma fotografia onde deu corpo a um verbo humanizador. É de dar graças por acompanharmos o crescimento de homens e mulheres do presente, ajudando-os a ser mais conscientes, competentes, compassivos e comprometidos.

domingo, 5 de novembro de 2017

Breve oração antes de adormecer




René Pronk

Agradeço-Te os sonhos e o coração transformado.
Enquanto luz, faz-me ser cada vez mais terra
fértil de novo amanhecer.


Como amar alguém violento?




Robert Virtue


[Secção pensamentos soltos] Como amar alguém violento? Pergunto amar, não pergunto tolerar, aceitar ou promover. A natural reacção primeira é a de ripostar com igual violência, desejando-lhe o pior. É forma básica de protecção. Desejar-lhe o pior é desejar que desapareça, morra, seja anulada a sua existência. Repito: é natural. Ou seja, não se pode julgar essa reacção. Daí que o perdão, essa intensa forma de amor, não seja de todo automático, nem sensacionalista. É de caminho lento, demorado, em passo peregrino, de profundo reconhecimento de amor próprio. Quem é violento necessita do amor que anule essa violência. É uma vítima de tanto, de si mesmo, nessa marca de demonstração de poder que mais não é que um imenso complexo de inferioridade. E tanto mal faz. O violento, o agressor, tem de ser travado nos seus actos. Contudo, insisto, tem de ser amado por alguém. Esse amor não é desculpar as suas acções violentas, agressivas. Elas têm de ser responsabilizadas. Esse amor é cortar a violência não com outro tipo de violência, mas com o desejo de que o outro viva.

sábado, 4 de novembro de 2017

Estrelas a dançar no Kastelo




[Secção pensamentos soltos] Estrelas a dançar ao vento, em 39 segundos. Podia ser mais, mas era o suficiente para contrastar com os minutos de violência de outros vídeos que por aí circulam. Estas estrelas estão penduradas numa das árvores do jardim do Kastelo, uma casa cheia de Vida, onde se presta cuidados continuados e paliativos pediátricos. Estive lá hoje, em conversa com alguns familiares. Espiritualidade era o tema. Escutei histórias de dor, partilhadas entre lágrimas e sorrisos, confusão e gratidão. “Ficamos mais humanos”, “ganha-se consciência do amor e do que realmente importa”, “a felicidade não se mede em coisas, mas em vida partilhada”, “basta um sorriso”, “o tempo relativiza-se”, “anjos e especiais é o que estes meninos são”, “no final, apercebo-me da benção. Obriga-me a ver a vida em cada dia de forma diferente.” No final, houve abraços. O Kastelo move-se de abraços e desperta para o que realmente importa: respeito pela vida do outro. Em contraste com a violência em vídeos que por aí circulam, 39 segundos de estrelas a dançar ao vento. Convidam a entrar no Kastelo. Uma casa cheia de Vida. 

P.S. - O Kastelo é finalista de um prémio. Dá para votar nesta obra para a Vida: 
http://onortesomosnos.jn.pt/?contest=video-detail&video_id=132

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Morte? Vida




Jim Brandenburg


A morte não é o fim, mas o início do novo modo de relacionar. Há mortes que se preparam, outras são inesperadas. Ambas obrigam a ver o mundo de forma diferente. O luto natural e necessário faz pensar e sentir a mistura da saudade e tristeza pelo abraço não dado, o carinho por fazer, a história por contar, o perdão que ficou estacionado entre o dar e o receber. Também no sentimento de gratidão, nessa luz recebida enquanto se privou com quem partiu. Não é em vão que se condensa num dia, logo após a festa da totalidade dos Santos, a memória de todos os que já partiram, incluindo aqueles que não tiveram uma mão amiga que os acompanhasse no momento tão forte como o nascer. A vida não acabou, modificou-se o modo de relacionar. Por isso, esse sempre que caracteriza a vida, permite que de forma especial neste dia, ao recordar nomes no silêncio da oração ou da celebração, haja agradecimento, perdão e abraço.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ser santo - II




[Secção outros tons] A terminar o dia de todos os Santos na transição para o dia 2 de novembro.

Ser santo



[Coisas na vida de um padre - texto repescado de há 3 anos e adaptado] Regressava da Missa. No metro, claro está [eu e o metro, com tantas histórias]. Vinha a pensar na santidade, nisto de ser santo. Apercebi-me que estava a ser modelo de “sketching”. Aquele olhar típico em subida e descida, acompanhando a caneta no movimento de registo. Não resisti à curiosidade e fui espreitar. Pedi para fotografar. A minha imagem, em conjunto com a de outras pessoas, desenhadas pelas mãos da Milly, deve ainda estar por terras da Noruega. Seguindo viagem, continuei nos pensamentos: Até que ponto a santidade não será o deixar-se ser modelo de Bem para alguém? E, no fundo, permitir que esse testemunho vá pelo mundo fora? Parece-me que, para isso, há que desejar ser santo. Eu quero continuar a sê-lo cada vez mais. Não pela auréola, altar ou ar cândido, mas pela certeza da conversão, de, apesar dos medos ou dúvidas ou pecados, deixar-me transformar em direcção do amor e da justiça. Sim, quero ser santo e quero fazer milagres, dos que aliviam penas e dores, ao jeito de Deus que ama e faz sorrir pelo seu humor, que serena o coração e acolhe. Há 3 anos, regressava da Missa, no metro, e vinha a pensar nisto de ser santo. Pensamento que ainda continua. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Necessidade do feminismo




Jon Nazca/reuters

[Secção desabafos] Um ex-ministro, supostamente culto (cof cof cof), professor de filosofia, agrediu, aliás, continuou a agredir, em muitas dimensões, a ex-mulher. Foi condenado, com pena suspensa. Há dias, foi a cena do outro acordão e tal e coiso. Enquanto em sociedade não se perceber a importância do simbólico do que, infelizmente, pode legitimar a continuação da violência doméstica, então, não se fale de justiça de forma tão determinada. E, não, o amor NÃO aguenta tudo. O “dar a outra face” pode significar distanciar. Por já saber de muitas histórias, percebo a importância e necessidade do feminismo. Boa noite!